A obra traz semlhanças com o enredo da série " o auto da compadecida" do escritor Ariano Suassuna, no entanto, apresenta personagens diferentes e utliza estrofes e refrão do hino de Capela.
Lendo a forma sábia do escritor de narrar de forma divertida fatos que parecem ter acontecido perto de nós; recomendo a leitura,
[04/08, 10:58] Josival: *O AUTO DA SILVÂNIA*
No Hino de Capela/SE há estes versos:
_“Hoje esta terra próspera e dileta_
_Onde tudo nos fala ao coração_
_É no dizer sincero do poeta_
_A *Verona* de Sergipe e do sertão”_
*Verona*, como se sabe, é uma histórica cidade no norte da Itália, famosa por ser o cenário de *Romeu* e *Julieta*. É lá onde fica a “Arena de Verona”, um anfiteatro romano do Século I.
Capela, na poética de João Rocha e Moacyr Carvalho, é a Verona de Sergipe e do sertão.
*Silvânia*, uma mulher impetuosa, de desejos insubmissos, a exemplo da *Lilith*, a primeira mulher feita do barro pelo Grande Oleiro do Universo, Deus (Gn 1:27). A segunda mulher foi *Eva*. Deus a fez da costela do homem (Gn 2:21-23), uma vez que *Lilith* foi expulsa do paraíso porque *Adão*, que era machista, queria sujeitá-la a seus caprichos e ela recusou.
*Silvânia* entra no auto teatral porque já está nos autos judiciais.
O *Auto da Silvânia* utiliza personagens alegóricas, misturando doutrina, comicidade popular e representação moral, numa mesclagem de três leis: a Lei do Amor, a Lei da Urna e a Lei dos Autos.
Título: Farsa política em um ato, dois maridos, três palanques e muitos recursos.
O ménage à trois não será apresentado como afirmação sobre a intimidade sexual dos personagens. Será muito mais corrosivo transformá-lo em ménage político-processual:
Não dormem três na mesma cama;
dormem três no mesmo poder.
Um comanda pela lembrança,
outro governa pelo mandato,
e ela administra o colchão.
*Personagens;*
*Silvânia*, Senhora da Verona, personagem central, intensa, arguta, capaz de transformar marido em prefeito, ex-marido em adversário e atual marido em deputado.
*Dom Suquita*, o Ex-Amor, antigo alcaide, marido pretérito, adversário presente e corréu permanente.
*Dom Cristino Calvoamante*, o Marido do Presente, deputado, herdeiro político e afetivo do lugar deixado pelo primeiro esposo.
*Tourinho de Pau*, prefeito oficial, personagem que entra em cena procurando saber se deve governar ou apenas representar.
*Dona Flor*, vinda da Bahia para esclarecer que ter dois maridos é coisa muito diferente de possuir dois palanques.
*Julieta de Verona*, aparece indignada porque Capela apropriou-se de sua cidade sem pagar direitos autorais.
*Romeu*, descobre que, em Capela, morrer por amor é ingenuidade; o prudente é sobreviver para disputar a eleição seguinte.
*A Urna*, mulher grávida de votos, que nunca sabe exatamente quem é o pai da vitória.
*O Erário Municipal*, entra magro, pálido, com os bolsos virados e uma faixa escrita: _*“Patrimônio do povo”*_.
*A Justiça*, senhora vagarosa, carregando uma balança numa mão e, na outra, um carrinho de processos.
*O Recurso*, personagem elástico, que entra toda vez que alguém pensa que a peça terminou.
*O Parvo Capelense*, aparentemente ingênuo, mas único personagem autorizado a dizer a verdade.
*O Coro das Janelas*, vizinhas, eleitores, cabos eleitorais e observadores que sabem de tudo, inclusive daquilo que nunca aconteceu.
Que tal consultarmos os autos? *Amanhã continua...*
Bom dia.
[04/08, 10:58] Josival: *O AUTO DA SILVÂNIA*
*Capítulo 2*
Estrofe do Hino de Capela/SE:
_“É a flor tropical dos tabuleiros_
_Entreaberta ao calor do Sol dourado_
_Perfumada e feliz como se fosse_
_A noiva angelical do nosso estado”_
*A Verona sergipana* é também:
*A flor tropical dos tabuleiros;*
*A noiva angelical do nosso estado.*
O Arauto entra no palco declamando:
_“Hoje esta terra próspera e dileta_
_Onde tudo nos fala ao coração_
_É no dizer sincero do poeta_
_A Verona de Sergipe e do sertão.”_
_“É a flor tropical dos tabuleiros;_
_É a noiva angelical do nosso estado;_
_É a loba dos seios refartados_
_Que dessedenta o seu povo ordeiro.”_
Em seguida, *Julieta* aparece e pergunta:
_*– Quem autorizou esta gente a usar o nome de Verona?*_
O *Parvo* responde:
_*– Senhora, em Capela não se pede autorização. Quando muito, entra-se com recurso.*_
No próximo capítulo veremos que o hino capelense tem sido usado como trilha musical do _*ménage à tróis*_ político tipo *“Dona Flor e Seus Dois Maridos”*: *Silvânia* entre *Dom Suquita* e *Dom Cristino*.
No próximo capítulo, verona, aliás, veremos...
Bom dia.
[04/08, 10:58] Josival: *O AUTO DA SILVÂNIA*
*Capítulo 3*
E a banda de Popó continua executando o Hino de Capela/SE:
_“Aos filhos, ela dá prodigamente_
_No amanho do solo, a rica mesa_
_É o capelense muitas vezes sente_
_Seu orgulho nascer dessa grandeza”_.
*Amanhar o solo:* cultivar, preparar.
*Julieta* encontra *Dona Flor* e lamenta ter morrido por um só *Romeu*. *Dona Flor* explica que conheceu dois maridos, mas teve a prudência de manter um deles morto.
*DONA FLOR:*
_Eu tive dois, não nego, não,_
_mas um deles era defunto_;
_aqui os dois vivem no assunto_
_e querem a mesma eleição_.
Silvânia entra e corrige:
– _Não são meus dois maridos_.
–_Um é o passado, outro é o presente_.
O *Parvo* pergunta:
– _E o município?_
Ela responde:
_– O município é o futuro_.
*O ex-amor*
*Dom Suquita* entra cantando apenas:
_“Ex-amor, gostaria que tu soubesses…”_
*Silvânia* interrompe:
_– Soube. Por isso me separei_.
*Cristino* pergunta:
_– E por que ele continua cantando?_
O *Parvo* responde:
_– Porque há homem que perde a esposa, perde a prefeitura, perde a eleição, mas não perde o microfone_.
A música não seria mero ornamento. Representaria o ex-marido que não consegue abandonar o lugar simbólico ocupado pela antiga companheira. O amor terminado transforma-se em disputa política; a saudade troca o violão pelo palanque.
No próximo capítulo, veremos o ménage dos palanques.
Bom dia.
[04/08, 10:58] Josival: *O AUTO DA SILVÂNIA*
*Capítulo 4*
O Hino de Capela/SE, em seu estilo barroco, poetiza:
_“Seu estandarte é o campo dadivoso_
_Sua divisa é o arado benfeitor_
_Tem como escudo forte e portentoso_
_A couraça invencível do labor”_.
A *Silvânia*, com seu ímpeto amazônico travestido de civismo, querendo deixar uma marca de sua alcaidia, para ser lembrada toda vez que o mastro fosse eriçado, resolveu alterar o brasão e a bandeira da Verona dos Tabuleiros. Para tanto, sem licitação, contratou o patrício, o artista plástico e poeta Isamel.
A arte heráldica de Isamel foi prontamente acolhida por *Silvânia* que anexou a um PL (projeto de lei) encaminhado aos súditos da Câmara Municipal, em caráter de urgência.
Da heráldica isamelita, os operários do _“campo dadivoso”_ foram excluídos, como de _“o arado benfeitor”_ não precisasse de mãos para operá-lo com seu _“couraça invencível do labor”_.
O PL foi aprovado sem qualquer discussão, e sancionado por *Silvânia*.
Hoje, quem olha a bandeira da *"Verona do sertão”* vê a cara da ex-alcaide *Silvânia*.
O Tilinho observara que a *Silvânia* se apropriou da coroa da “Rainha dos Tabuleiros”, acrescentando em seu currículo lattes: _*Silvânia: A Rainha dos Tabuleiros*_.
Esse trunfo sempre é lembrado no ménage dos palanques, como se fosse uma grande cama no palco, com a inscrição:
*PODER MUNICIPAL*
*Dom Suquita* puxaria o lençol da memória. *Dom Cristino* puxaria o lençol do mandato. *Silvânia* permaneceria sentada no meio.
O *Parvo* explicaria ao público:
_– Não penseis mal, cristãos. Este não é ménage de alcova. É ménage administrativo. Aqui ninguém divide corpo. Divide-se prefeitura_.
*Tourinho de Pau* apareceria com travesseiro debaixo do braço:
_– E onde dorme o prefeito?_
*Silvânia* responderia:
_– Na fotografia oficial_.
*Observação:* Essa é uma das passagens mais afiadas do auto. A sátira não afirma como fato que alguém governa clandestinamente. Encarna teatralmente a _*percepção política popular*_ de que o poder formal pode ter um titular e o poder real, outro.
No próximo capítulo, veremos a perplexidade de *Dona Flor*.
Bom dia.
[04/08, 10:58] Josival: *O AUTO DE SILVÂNIA*
*Capítulo 5 – A coligação dos dois maridos*
_Entra o CORO dos Capelenses. Alguns carregam pequenas cruzes; outros, títulos eleitorais. Um deles conduz uma urna coberta por um véu de noiva. Outro leva um enorme livro, no qual se lê: “AUTOS”. Ao fundo, a banda executa solenemente a primeira estrofe do Hino de Capela_:
_*Da cruz simbólica de Cristo*_
_*Da mesma forma que o Brasil nasceu*_
_*A Capela também floriu, cresceu*_
_*Num misto de amor e singeleza*_.
_Entra Dona Flor, abanando-se com um santinho eleitoral. Examina a cruz, a urna, o véu e o enorme livro. Depois contempla Silvânia, que permanece ao centro. De um lado, Dom Suquita; do outro, Dom Cristino_.
*DONA FLOR*
Valha-me Nosso Senhor dos dois maridos!
*PARVO*
Esse santo ainda não entrou no calendário.
*DONA FLOR*
Pois devia entrar. No meu caso, Vadinho voltava do além. Aqui o ex-marido nunca foi embora.
*SILVÂNIA*
Em Capela ninguém parte inteiramente. Deixa um cabo eleitoral, um processo ou uma provocação.
*DONA FLOR*
Minha filha, isto não é casamento. É coligação proporcional.
*DOM SUQUITA*
Protesto!
*PARVO*
O senhor protesta como ex-marido ou como ex-prefeito?
*DOM SUQUITA*
Como cidadão!
*PARVO*
Então está pior. Cidadão protesta e ninguém escuta. Ex-prefeito protesta e vira notícia.
*DOM CRISTINO*
Não vejo graça nenhuma nisso.
*PARVO*
Deputado, graça é coisa que a pessoa recebe sem merecer. Vossa Excelência devia agradecer.
*DOM CRISTINO*
Respeite meu mandato!
*PARVO*
Respeito tanto que nem chego perto. Mandato, de longe, parece bonito. De perto, começa a pedir voto.
_O CORO canta novamente, de maneira mais ligeira_:
_*Da cruz simbólica de Cristo*_,
_*Capela floriu e cresceu...*_
*DONA FLOR*
Pare a música!
_A banda interrompe bruscamente_.
*DONA FLOR*
Quero entender essa história. O hino diz que Capela nasceu da cruz, floresceu no amor e cresceu na singeleza.
*PARVO*
Naquele tempo ainda não havia rede social.
*DONA FLOR*
E o que aconteceu com a singeleza?
*PARVO*
Entrou na política.
*DONA FLOR*
E com o amor?
*PARVO*
Filiou-se.
*DONA FLOR*
E com a cruz?
*PARVO*
Essa permaneceu. Só mudou de ombro.
*DONA FLOR*
Explique.
*PARVO*
Dom Suquita carrega a cruz de ter sido marido e agora ser passado.
*DOM SUQUITA*
Eu não sou passado!
*PARVO*
Perdão. É passado com pretensão de futuro.
*DONA FLOR*
E Dom Cristino?
*PARVO*
Carrega a cruz de ser o atual, sabendo que em política todo atual já nasce ameaçado de virar ex.
*DOM CRISTINO*
Eu tenho mandato!
*PARVO*
Tem, sim. Mas mandato é igual feira: quando a pessoa vê, já está desmontando as barracas.
*DONA FLOR*
E Silvânia?
*PARVO*
Carrega a cruz de ficar no meio dos dois.
*SILVÂNIA*
Não fico no meio de homem nenhum!
*PARVO*
Fica no meio da história. É diferente e dá mais trabalho.
*DONA FLOR*
E qual é a cruz do povo?
*PARVO*
Sustentar as outras três.
_O CORO faz o sinal da cruz_.
*CORO*
Misericórdia!
No próximo capítulo, explicaremos melhor!
*********
Bom dia
[04/08, 10:58] Josival: *O AUTO DA SILVÂNIA*
*Capítulo 6 – Dona Flor Interpreta o Refrão*
_Em *Fá Sustenido* que inspirou *Zózimo Lima*, *Popó* rege a Banda e o *Coro inteiro* entoa solenemente o refrão do *Hino de Capela*:_
_*Assim, no pedestal da cristandade*_
_*Edificante exemplo que seduz*_
_*Uma formosa e lírica cidade*_
_*Surgiu serena de uma simples cruz*_
_Dona Flor fecha o leque, olha para Silvânia entre Dom Cristino e Dom Suquita, torna a olhar para a cruz e solta uma gargalhada_.
*DONA FLOR*
Pare a música, Maestro,
que esse hino tem mistério!
Quanto mais parece sério
mais precisa de inquérito.
_*“Assim, no pedestal da cristandade...”*_
Bonito!
Capela foi posta num pedestal. O problema é que todo pedestal, quando entra na política, deixa de sustentar santo e passa a sustentar candidato.
Pedestal é lugar alto. Quem sobe, acena. Quem está embaixo, carrega. E o povo, que não nasceu estátua, acaba servindo de base para toda grandeza de palanque.
*PARVO*
E quando a estátua cai?
*DONA FLOR*
Culpam o pedestal.
Mas o verso prossegue:
_*“Edificante exemplo que seduz...”*_
Isso é verdade. Capela é edificante. Edifica prefeito, edifica deputado, edifica adversário, edifica processo e, quando sobra algum tijolo, edifica uma versão nova dos acontecimentos.
Quanto ao exemplo que seduz, aí está Silvânia para provar.
Seduz o antigo marido, seduz o atual, seduz a urna, seduz o palanque e, pelo que vejo, até o processo se deixou seduzir, pois não consegue soltá-la das folhas.
*SILVÂNIA*
Dona Flor, tenha respeito!
*DONA FLOR*
Tenho respeito, minha filha. O que me falta é cegueira.
No meu caso, Vadinho me seduzia porque era bonito, atrevido, performático na alcova e morto. Aqui a sedução é mais trabalhosa: um homem vem com urna, outro vem com processo, e a mulher fica no centro, escolhendo entre a apuração e a apelação.
Isso não é triângulo amoroso.
É geometria eleitoral.
Dom Cristino fica de um lado, cercado de votos, urnas e alianças. Dom Suquita, do outro, soterrado em autos, recursos e lembranças. Silvânia no meio, imóvel como santa de procissão, mas com um olho no andor e outro em quem leva a imagem.
*DOM CRISTINO*
Eu sou o marido atual!
*DOM SUQUITA*
E eu tenho história nesta cidade!
*DONA FLOR*
Pois é justamente aí que mora o pecado. Um apresenta certidão. O outro apresenta currículo. E Silvânia apresenta maioria.
O hino continua:
_*“Uma formosa e lírica cidade...”*_
Formosa, Capela é.
Lírica também.
Mas o lirismo daqui é diferente. Em outras cidades, o poeta canta a lua, o rio, a flor e a saudade. Em Capela, canta-se o ex-marido, o marido atual, o prefeito oficial, o poder informal, a eleição que passou e a próxima que já começou antes de terminar a anterior.
É uma lírica com título de eleitor.
Uma poesia que, em vez de métrica, tem pesquisa de intenção de voto.
*PARVO*
E em vez de rima?
*DONA FLOR*
Tem chapa.
Mas o melhor vem no fim:
_*“Surgiu serena de uma simples cruz.”*_
Serena?
Onde?
Apontem-me essa serenidade, que quero conhecê-la antes que ela se candidate.
Capela nasceu de uma cruz simples. Depois o povo, muito criativo, resolveu complicá-la.
Há a cruz de Dom Cristino, que é marido presente, mas precisa conviver com o fantasma político do antecessor.
Há a cruz de Dom Suquita, que deixou de ser marido, mas continua amarrado a Silvânia nas páginas do processo.
Há a cruz de Silvânia, que se vê entre um homem com urnas e outro com autos, como se o destino lhe tivesse oferecido duas modalidades de matrimônio: o casamento civil e o casamento processual.
E há a cruz do povo, que é a única verdadeiramente pesada, porque carrega os três e ainda precisa cantar o hino.
*PARVO*
Então não existe ménage?
*DONA FLOR*
Existe, mas não façam malícia.
Não é ménage de alcova. É ménage de poder.
Dom Cristino dorme com Silvânia no leito conjugal.
Dom Suquita dorme com ela nas entranhas dos autos.
E o poder, que é o mais atrevido dos três, dorme onde bem entende.
*DOM CRISTINO*
Não admito essa comparação!
*DOM SUQUITA*
Nem eu!
*DONA FLOR*
Então reclamem ao poeta. Foi ele quem colocou Capela no pedestal, chamou-a de sedutora, declarou-a formosa e ainda disse que tudo nasceu de uma cruz.
Eu apenas examinei a mobília.
*SILVÂNIA*
E qual é sua conclusão?
*DONA FLOR*
Minha conclusão é simples:
Capela nasceu da cruz de Cristo, mas a política tratou de fabricar outras.
A primeira salvava almas.
As demais disputam votos.
A cruz de Cristo tinha dois braços.
A de Silvânia tem dois maridos: um de carne, outro de processo.
E ela, no centro, não está crucificada.
Está em campanha.
_O Coro faz o sinal da cruz._
*CORO*
Misericórdia!
DONA FLOR
Misericórdia, não.
Coligação.
Porque nesta formosa e lírica cidade, até o Calvário, se tiver votos suficientes, termina em palanque.
*JUSTIÇA*
Esta peça, nunca termina. Quando baixa o pano, sobem os autos.
Aguardem os próximos capítulos.
[04/08, 10:58] Josival: *O AUTO DA SILVÂNIA*
*Capítulo 7 – Dona Flor e a Lenda da Bica*
Dona Flor leu no site da Câmara Municipal de Capela a lenda de Bica e Beca e, então, começou a entender melhor porque o poeta Moacyr Carvalho disse que Capela é _A *Verona* de Sergipe e do sertão”_.
*DONA FLOR*
_– Silvânia, você já leu Shakespeare?_
*SILVÂNIA*
_– Esse homem já foi prefeito de onde?_
*DONA FLOR*
_– De lugar nenhum, mulher! Foi ele quem escreveu *Romeu e Julieta*, a tragédia de dois adolescentes que confundiram a pressa do desejo com a eternidade do amor_.
*SILVÂNIA*
_– Dom Suquita disse que assistiu a um filme com esse nome, no cinema do Chico. Mas faz tanto tempo que Romeu ainda devia estar vivo_.
*DONA FLOR*
_– Pois lhe explico. Em Verona, na Itália, havia duas famílias que se odiavam: os *Montéquios* e os *Capuletos*. Romeu era Montéquio. Julieta, Capuleto. Apaixonaram-se, mas as famílias proibiram o namoro. O amor começou em suspiro e terminou em defunto_.
*SILVÂNIA*
_– Espere aí! Você está insinuando que o amor que vivo com Dom Cristino vai acabar em tragédia?_
*PARVO*
_– Eleitoral!_
*DONA FLOR*
_– Não, mulher! Quero mostrar por que Moacyr Carvalho chamou Capela de *“a Verona de Sergipe e do sertão”*_.
*SILVÂNIA*
_– Já passei o pires nesta vida, mas nunca passei os olhos nesse Shakespeare. E também não tenho negócio com Moacyr Carvalho_.
*DONA FLOR*
_– Mas já bebeu água da Bica? Já tomou banho nela?_
*SILVÂNIA*
_– E muito! Banhos torrenciais, de lavar pecado e acordar desejo. Banhos sexualmente torrenciais!_
*DONA FLOR*
_– Então você devia conhecer a lenda de Bica e Beca._
*SILVÂNIA*
_– Desembuche_.
*DONA FLOR*
_– Bica e Beca pertenciam a povos indígenas inimigos. Quando se conheceram, a guerra já era velha. O amor não criou o problema; apenas mostrou a estupidez dos mais velhos, que tratavam o ódio como herança de família_.
*SILVÂNIA*
_– Então são o Romeu e a Julieta da Verona de Sergipe?_
*DONA FLOR*
_– Exatamente. Romeu e Julieta não puderam viver juntos. A morte fez o casamento que Verona proibiu_.
_– Bica e Beca também foram unidos pela morte. Seus corpos desapareceram, mas suas lágrimas, segundo a lenda, transformaram-se nas águas da Bica_.
_– Com uma diferença_.
_– Romeu e Julieta permaneceram juntos no túmulo_.
_– Bica e Beca permaneceram juntos na nascente_.
*SILVÂNIA*
_– Ah! Então era por isso que, quando eu me banhava na Bica, sentia um friozinho no triângulo!_
*PARVO*
_– Geográfico ou eleitoral?_
[04/08, 10:58] Josival: *O AUTO DE SILVÂNIA*
_*Capítulo 8: Quando Dona Flor encontrou Mica e Mimi na Baixa do Sapateiro*_
Dona Flor chegou à Capela de trem. Embarcou, segundo ela, numa estação do Pelourinho. Se algum engenheiro ferroviário contestar a existência da estação, que recorra contra a literatura: trem de personagem não anda sobre trilho; anda sobre licença poética.
De Salvador, foi a Aracaju. De lá, tomou o trem para Propriá, apeou no Ramal Ferroviário Murta / Capela e aguardou a locomotiva que fazia a linha.
Entre Murta e Capela havia doze quilômetros de ferro, madeira, fumaça e espinha humana. A linha fora inaugurada em 1915, época em que Honorino Leal era intendente (prefeito) do município. Os trilhos vieram da Inglaterra e da Bélgica, porque naquele tempo até o caminho do povo precisava ser importado. Foram 800 toneladas de ferro.
Os cerca de vinte mil dormentes saíram da Mata Atlântica: aroeira, sucupira e ipê foram derrubados para que a locomotiva permanecesse de pé. Mais de sete mil árvores antigas tombaram. O óleo, para imunizar os dormentes, chegou do Rio de Janeiro. O suor, como sempre, foi fornecido pela região.
Trabalharam ali aproximadamente trezentos homens. Eram livres no papel, mas o papel descansava nos cartórios enquanto eles carregavam dormentes debaixo do sol. A Abolição já havia passado; esqueceram apenas de avisar aos feitores.
Sentada na plataforma, Dona Flor contemplava os trilhos e se lembrava do Pelourinho. Ali também a madeira conhecera o peso de corpos negros. Mudava-se o instrumento; o açoite conservava o método.
Foi quando apareceu uma mulher do Quilombo Terra Dura. Trazia um pano branco na cabeça, os pés gastos pela caminhada e uma dignidade que não caberia em palácio.
Aproximou-se, examinou Dona Flor e perguntou:
*MÃE PRETA*
_– Por acaso a senhora é aquela mulher fogosa que Jorge Amado casou com dois homens?_
Dona Flor espantou-se. Não porque fosse reconhecida, mas porque não esperava encontrar numa mulher pobre e quilombola uma leitora de romances.
Logo sentiu vergonha do próprio espanto.
Pobreza não é ignorância. Pele preta não é silêncio. E livro, quando presta, atravessa porta de rico e janela de barraco sem pedir licença.
*DONA FLOR*
_– Sou eu mesma. Mas como a senhora me reconheceu?_
*MÃE PRETA*
_– No quilombo, quem não possui biblioteca empresta memória. E história de mulher com dois maridos ninguém esquece._
Dona Flor sorriu. Também carregava sangue africano e tinha intimidade com os tambores do Olodum. Foi justamente ao batuque do Olodum, na Baixa do Sapateiro, que encontrara, anos antes, dois capelenses: Ademir, chamado Mica, e Nilton, conhecido por Mimi.
Mica e Mimi eram boêmios daquele tempo em que a noite ainda não precisava de rede digital para produzir escândalo. Bebiam devagar, conversavam depressa e conheciam cada esquina de Salvador pelo nome da mulher que ali lhes negara confiança.
Mica lhe falara de Capela.
Mimi, da Bica.
Os dois, entretanto, nada disseram sobre Silvânia. Talvez por prudência. Talvez porque, naquele tempo, a história ainda estivesse escolhendo seus maridos.
Mãe Preta sentou-se ao lado de Dona Flor e, sem rodeio, fez a pergunta que nem padre, médico ou juiz teria coragem de formular:
*MÃE PRETA*
_– E com qual dos dois maridos a senhora gozava mais?_
Dona Flor abriu o leque.
Fechou.
Abriu novamente.
A pergunta era desaforada, mas tocava numa verdade que ela passara a vida escondendo sob as toalhas bem-passadas de Teodoro Madureira.
*DONA FLOR*
_– Minha filha, com Teodoro eu cumpria expediente. Com Vadinho eu perdia o calendário._
*MÃE PRETA*
_– Quer dizer que Teodoro era ruim?_
*DONA FLOR*
_– Ruim, não. Era protocolar. Teodoro fazia amor como quem autentica documento: conferia, rubricava e encerrava o ato._
Com ele, Dona Flor fingia o prazer para não ferir a dignidade do farmacêutico. Teodoro terminava satisfeito consigo mesmo, enquanto ela permanecia à espera de uma providência complementar.
*MÃE PRETA*
_– E Vadinho?_
*DONA FLOR*
_– Vadinho não fazia amor. Cometia carnaval._
Com Teodoro, ela segurava o bocejo.
Com Vadinho, segurava a cabeceira para não perder o juízo.
Chegou a frequentar uma academia de pompoarismo, desejosa de melhorar o desempenho conjugal com Teodoro. Não adiantou. Onde faltava tesão, exercício nenhum fazia milagre. Além disso, o homem padecia de uma pressa íntima que não concedia contraditório.
*MÃE PRETA*
_– Era ligeiro?_
*DONA FLOR*
_– Coito de coelho. Quando eu percebia que a sessão havia começado, ele já proclamava o resultado._
Mãe Preta soltou uma gargalhada que fez os pombos abandonarem a estação.
*DONA FLOR*
_– Vadinho era diferente. Uma noite, Teodoro viajou para Feira de Santana. Vadinho chegou perto da meia-noite e só foi embora às quatro da manhã_.
*MÃE PRETA*
_– E quantas vezes?_
*DONA FLOR*
_– Dezessete._
*MÃE PRETA*
_– Dezessete?_
*DONA FLOR*
_– Dezoito seria ostentação._
A locomotiva apitou ao longe.
Dona Flor guardou o leque, mas Mãe Preta ainda não terminara o interrogatório.
*MÃE PRETA*
_– Foi por causa disso que chamaram a senhora para aquela palestra no Piauí?_
*DONA FLOR*
_– Em Esperantina. Dia 9 de maio, Dia Municipal do Orgasmo._
A cidade fica a cento e setenta e nove quilômetros de Teresina e possuía uma lei sobre o assunto. Dona Flor fora convidada para abrir a campanha com duas conferências:
_*“Fome zero, orgasmo dez.”*_
e
_*“Orgasmo: endurecer sem perder a ternura.”*_
*MÃE PRETA*
_– E o que a senhora defendeu?_
*DONA FLOR*
_– Que o direito ao orgasmo fosse incluído entre os direitos sociais do artigo 6º da Constituição._
*MÃE PRETA*
_– E o governo forneceria?_
*DONA FLOR*
_– Deus nos livre! Governo que se mete nisso acaba criando fila, formulário e licitação para prazer terceirizado._
Nesse momento, surge o Parvo, que viajara escondido no vagão das bagagens.
*PARVO*
_– Direito constitucional ao orgasmo seria bonito. O problema era regulamentar._
*DONA FLOR*
_– Por quê?_
*PARVO*
_– Porque metade dos homens alegaria cumprimento da obrigação, e a outra metade pediria prazo em dobro._
*MÃE PRETA*
_– E Teodoro?_
*PARVO*
_– Teodoro requereria tutela de urgência._
*DONA FLOR*
_– Que seria indeferida por perda precoce do objeto._
O trem entrou na estação cuspindo fumaça, como se tivesse ouvido a conversa e se engasgado.
Dona Flor levantou-se. Antes de embarcar, olhou novamente para os trilhos construídos com árvores derrubadas e homens quase escravizados.
*DONA FLOR*
_– Estranho este mundo. Para trazer uma locomotiva até Capela, derrubaram sete mil árvores e esgotaram trezentos trabalhadores. Para levar uma mulher ao prazer, às vezes basta um homem não ter pressa._
*MÃE PRETA*
_– E para chegar ao poder?_
*PARVO*
_– Aí derrubam a mata, o homem, a mulher e, se ainda houver obstáculo, derrubam também o processo._
Dona Flor subiu no trem.
Quando a locomotiva partiu em direção a Capela, ela pôs a cabeça para fora da janela e gritou:
*DONA FLOR*
_– Mãe Preta, diga a Mica e a Mimi que cheguei!_
*MÃE PRETA*
_– E qual marido veio com a senhora?_
Dona Flor ergueu o leque.
*DONA FLOR*
_– Nenhum! Depois dos dois que tive, agora só viajo com bagagem de mão._
*MÃE PRETA*
_– A senhora disse que entrou na academia de pompoarismo. O que é pompoar?_
*DONA FLOR*
_– O trem já está saindo. Procure no google._
O trem apitou.
O Parvo, espremido entre duas malas, falou para a plateia:
*PARVO*
_– Dona Flor teve dois maridos e virou literatura. Silvânia teve cinco e vive com o sexto. Quando essas duas chegarem à Bica, Nossa Senhora da Purificação vai precisar trabalhar em regime de plantão._
[04/08, 10:58] Josival: *O AUTO DE SILVÂNIA*
*Capítulo 9: Dona Flor é recepcionada por Paulinho do Miranda*
O trem deixa Murta, range sobre os trilhos e segue na direção de Capela. Pela janela, correm canaviais, árvores sobreviventes e lembranças que não conseguiram embarcar. Dona Flor viaja numa poltrona de madeira, abanando-se com o leque e lendo *História da Rainha dos Tabuleiros*, da historiadora *Denilsa de Oliveira*.
*DONA FLOR*
_– Vejam só! Capela nasceu do ventre varonil de Perpétua de Matos França_.
*PARVO*
_– Ventre varonil?_
*DONA FLOR*
_– Está escrito_.
*PARVO*
_– Então Capela já nasceu contrariando a anatomia_.
*DONA FLOR*
_– Não seja ignorante. “Varonil” aqui significa coragem_.
*PARVO*
_– Ainda bem. Por um instante pensei que a fundadora tivesse precisado de parteira e urologista_.
Dona Flor torna a ler.
*DONA FLOR*
_– Perpétua de Matos França. Eis uma mulher com nome de eternidade, sobrenome de país e coragem para fundar município_.
*Capítulo completo no link:*
https://1drv.ms/b/c/5f096848f2f5ae31/IQBRCVI8aRAwQYabtceI3m7wAcS_gMkucOV8WE4gd4CldIM?e=m89xGe
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