Artigo
CAPELA ENTRE A GUERRA E O PODER
Capela assiste a uma das disputas políticas mais intensas de sua história recente. De um lado, Silvany e Cristiano; do outro, Sukita. Uma ruptura que chama ainda mais atenção porque envolve não apenas trajetórias políticas que se cruzaram durante anos, mas também uma história pessoal: Silvany foi casada com Sukita e hoje é casada com Cristiano, atual liderança do grupo que está no comando político do município. O que poderia ser apenas uma disputa eleitoral transformou-se em um confronto marcado por entrevistas acusatórias, embates públicos, processos judiciais e episódios que aumentam a tensão política e deixam a população diante de uma pergunta inevitável: até onde essa guerra vai chegar?
O problema é que a política, quando ultrapassa os limites do debate democrático, começa a perder sua finalidade. Divergências são legítimas, críticas fazem parte da democracia e adversários precisam ser fiscalizados. Mas uma eleição não deveria transformar a cidade em palco permanente de acusações, ameaças e ressentimentos. Quando a disputa deixa de apresentar propostas e passa a alimentar conflitos pessoais, quem perde não é apenas um grupo político. Perde Capela, porque os problemas reais ficam em segundo plano enquanto os protagonistas da guerra ocupam todo o espaço do debate público.
Há ainda outro fenômeno que merece reflexão: a força da máquina política e a multiplicação de adesões em torno de quem está no poder. A cada movimento, novos aliados aparecem, muitas vezes vindos de espaços que até pouco tempo estavam em posições completamente diferentes. É natural que pessoas mudem de opinião e façam escolhas políticas. O que precisa ser observado é quando a conveniência começa a ocupar o lugar da convicção. A política não pode se transformar em uma espécie de mercado de apoios, no qual pessoas e grupos se aproximam do poder esperando alguma vantagem. Se isso acontece, a conta não deveria ser paga pelo cidadão.
E é justamente aí que a população precisa prestar atenção. A máquina pública tem limites. Recursos públicos precisam chegar à saúde, à educação, à infraestrutura, à limpeza da cidade, aos servidores e aos serviços que melhoram a vida das pessoas. Não podem ser tratados como combustível de uma disputa política permanente. Enquanto grupos medem forças, Capela continua tendo problemas para resolver e uma população que espera respostas. A cidade não pode ser administrada sob a lógica de quem venceu ou perdeu a última batalha política. Governo, oposição e lideranças precisam compreender que a eleição termina, mas as necessidades do povo permanecem.
Talvez a maior reflexão desta eleição seja justamente essa: o que estará em jogo depois que a guerra política terminar? Sukita tem sua história, seus aliados e sua trajetória. Silvany e Cristiano construíram outra frente política e hoje enfrentam diretamente esse antigo grupo. Cabe ao eleitor avaliar cada trajetória, cada discurso, cada proposta e cada escolha. Não cabe ao cidadão ser transformado em torcida organizada de uma disputa que parece não ter fim. Capela precisa escolher um caminho, não apenas um vencedor.
Porque nenhum grupo político será eterno e nenhuma estrutura de poder é maior do que a memória de um povo. Os processos podem continuar, as entrevistas podem se suceder, os ataques podem ocupar as redes sociais e os palanques podem ficar cada vez mais acirrados. Mas, depois da eleição, os políticos voltarão para suas casas e Capela continuará existindo. É a cidade que ficará com as consequências das escolhas feitas agora. O julgamento das urnas acontece em um dia; o julgamento da história acontece todos os dias. E dele, ninguém escapa. O tempo não para. E Capela também não pode parar.




